quarta-feira, 13 de março de 2013

TRANSCRIÇÃO E ANÁLISE DA OBSERVAÇÃO DE UMA BRINCADEIRA


TRANSCRIÇÃO DA BRINCADEIRA OBSERVADA

Após o término das atividades na sala de aula do maternal da Creche Kyra Maria Paes, a professora liberou as crianças das crianças observadas para brincar no pátio no horário do intervalo. As crianças se dividiram em grupos, sendo estes: individuais, duplas e grupos maiores, onde começaram a brincar. (Pular, correr, andar, passear, gritar etc.)
Então as crianças dirigem-se para o pátio onde os brinquedos estavam espalhados, os quais não pertencem aos alunos, e sim à instituição. Quando cada criança começa a pegar os brinquedos e se espalham pelo pátio. Podemos dizer que a brincadeira observada teve 2 (dois) momentos: No primeiro momento os alunos participantes são Ana* e Lucas*[*], daí, começam a brincadeira.

 Lucas brinca com seu brinquedo, enquanto Ana no banco atrás do colega arruma seus materiais, colocando suas bolsas e guardando objetos dentro das mesmas, colocando uma em cada lado para carregar.

 Ana segura a parte trazeira de uma, caçamba colocando uma cestinho dentro.

Então, Ana sai gritando: “- Olha a bacaxeira!!!”

Logo oferece a Lucas que está sentado no chão. Lucas pega o que Ana lhe oferece.

Ana dá alguns passos a frente e volta a oferecer a Lucas: “- Tome bacaxeira! Tome bacaxeira!”.

Lucas pega novamente o que Ana lhe ofereceu. Então Ana o observa e após sai passeando pelo pátio.

Quando Lucas a surpreende gritando: “- Quer caxeira!!!” Ana volta rapidamente para perto do colega e entrega o que lhe pediu. Lucas leva a que Ana lhe entregou até a boca: “- Ahum...”
Ana sai novamente. Quando o garoto grita mais uma vez: “- Quer caxeira!” A menina entrega ao colega o que lhe pediu calmamente. E Lucas leva o que tem nas mãos até a boca.

 Daí surge o segundo momento da brincadeira, onde os alunos participantes são: Ana*, Pedro*, e Bia*.

Ana sai para o pátio. Quando oferece o que traz para outra criança: “- Bacaxeira! Olha a bacaxeira!”.

Pedro a quem a menina ofereceu no pátio, não aceitou: “- Quer não”. Voltando a brincar sozinho. Ana sai e passa por Lucas e o oferece: “- Bacaxeira! Olha a bacaxeira! Quer bacaxeira!”.

Estendendo a mão para Lucas diz: “- Quer?” Lucas logo responde: “- Quer”.

Bia se aproxima de Lucas, e Ana logo pergunta: “- Quer bacaxeira, quer”?

Bia responde acenando positivamente com a cabeça. As duas crianças, Bia e Lucas aceitam levam a boca.

Por fim, a brincadeira termina do mesmo modo que começou espontaneamente.  Ana volta a passear no pátio, quando encontra Maria, sendo assim largos os objetos que carregava na brincadeira anterior, e então começa uma nova brincadeira com sua colega.



ANALISE DA OBSERVAÇÃO DA BRINCADEIRA

Para Vygotsky (1984), os elementos fundamentais da brincadeira são: a situação imaginária, a imitação e as regras. Segundo ele, sempre que brinca, a criança cria uma situação imaginária na qual assume um papel, que pode ser, inicialmente, a imitação de um adulto observado. Assim, ela traz consigo regras de comportamento que estão implícitas e são culturalmente constituídas.
O brinquedo do qual se refere Vigotsky é a brincadeira imaginária que a priori trata-se de uma representação da realidade, ou seja, é a memória em ação. Na brincadeira observada, as crianças representam uma situação comum no meio em que vivem.
É importante ressaltar que o brinquedo no mundo ilusório criado pela criança que é genuinamente simbólico, não é diretamente o objeto, mas a atividade de brincar que tem como característica principal a criação de uma situação imaginária baseada em regras de comportamento. Isto foi observado nas ações das crianças de oferecerem insistentemente em voz alta os produtos que conhecem serem vendidos deste modo, bem como o fato de, figuradamente, entregar algo (o produto) e/ou receber algo (o dinheiro).
A brincadeira de faz-de-conta é muito importante e tem desenvolvimento próprio. A criança transita do domínio das situações imaginárias para o domínio das regras. A essência da brincadeira de faz-de-conta é a criação de uma nova relação entre o significado e a percepção, ou seja, entre o pensamento e o real. Neste contexto, Vygotsky enfatiza o objeto como o pivô da brincadeira e que ao brincar de faz-de-conta, a criança representa papéis e relações do mundo adulto.
Diferentemente de qualquer outro objeto, o brinquedo não tem uma função determinante, ele permite a criança fazer uso da imaginação, utilizar o faz-de-conta, e embora o objeto tenha sua imagem, ela não o limita a um único pensamento, único princípio, mas sim a capacidade de criar. A criança possui no brincar um caráter simbólico, porque ela coloca significados do brincar, isto é, ela cria situações.
Desta maneira, a imagem que o brinquedo traz, faz com que a criança associe a ação presenciada ou vivenciada, lhe reproduzindo ou a imitando, modificando-as na forma como ver o mundo por meio da ficção. Por isso, não podemos só levar em conta as ações do real, mas também a imaginação, pois é através dela que a criança representa o mundo a sua volta. Dificilmente as crianças representariam essa situação imaginária se não presenciassem situações similares (vendedores de algodão doce, de macaxeira, de frutas, etc.).
            A imagem do brinquedo sintetiza a representação que uma dada sociedade tem da criança, isto é, uma imagem do mundo destinada à criança e que esta deverá construir para si própria.  O brinquedo não só condiciona a ação da criança, mas também oferece um suporte determinado que ganhará novos significados  através da brincadeira.
            O brinquedo é formado pelo domínio do valor simbólico sobre a função, ou para ser mais fiel ao que ele é a dimensão simbólica torna-se a função principal. Contudo trata-se de um objeto que a criança manipula livremente, sem estar condicionado ás regras. Porém, a brincadeira pode ser considerada como uma forma de interpretação dos significados contidos no brinquedo, sendo assim, a brincadeira é uma atividade livre e que não pode ser delimitada. Ele socializa a criança o desejo através da brincadeira. Contudo, o brinquedo se insere na brincadeira através de uma apropriação, ou seja, deixa-se envolver pela cultura lúdica disponível, usando praticas de brincadeiras anteriores.
O brinquedo possui seus traços próprios, no qual a sociedade que cria e estabelecem os sentidos destes objetos, o mesmo aparece como um suporte no desenvolvimento infantil, pois o brinquedo é também um suporte para a representação das crianças, é um objeto lúdico onde as sociedades e sujeitos que o manipulam podem criar significados diferentes para um mesmo objeto.
O brinquedo tem a função de despertar o fazer de conta da criança, possuindo assim imagens que darão sentidos as ações destes sujeitos. O brincar da criança traduz significados, onde a função principal do brinquedo é o valor simbólico atribuído, no brinquedo o valor simbólico é a função, está explícito no valor que a criança estabelece, não na ação que ela constrói, ou seja, no que ela realiza.
 O brinquedo é um objeto infantil, no qual a criança manipula livremente, é através dele que ela estimula a brincadeira e esta não pode ser estimulada. Assim, a brincadeira é um processo de relações interindividuais, portanto, de cultura, ela pressupõe uma aprendizagem social, isto é, a criança aprende-se a brincar. 
A criança é um ser representativo, a todo o momento elas criam, e reproduzem cenas. A brincadeira se tornou um tema de grande debate entre vários teóricos importantes, utilizando critérios diferenciados para as atividades infantis.
A atividade chamada de brincadeira observada pode se enquadrar no perfil de uma atividade de 2°grau, onde no 1° grau a criança realiza ações como comer, trabalhar, se vestir, coisas cotidianas, observamos uma atividade de faz de conta, uma ação de 2° grau, aquela que se assemelha ao cotidiano, onde ocorre mudanças nas ações, que são os sentidos e o domínio dado para as crianças.
A brincadeira surge como um comportamento derivado de outra atividade que se atribui significado. As crianças brincam porque decide brincar, utiliza um critério de decisão, decidindo assim o que fazer cria o mundo imaginário, o mundo que pertence ao 2° grau, o que é fora da realidade. A decisão é muito complexa, implicando se é noite ou dia, qual é a hora que acontece a cena, se é hora de comer ou não, decide os personagens da brincadeira e como deverão agir na mesma.
A brincadeira se transforma através da imagem que temos sobre o mundo, a mesma não pode medir sua direção, pois não sabemos onde e qual direção irá tomar, as crianças que iniciam o jogo, a brincadeira que os papeis que representam, ou representarão, as suas ações em geral, todas as atitudes das crianças envolvidas obedecem aos comandos das mesmas. Em todo o processo da brincadeira os significados são atribuídos.
É através da brincadeira que a criança explora, decodifica, interpreta e vai estabelecendo seus significados. A experiência da brincadeira é o uso do símbolo, o uso de um abjeto muda todo o contexto da ação praticada, o mesmo uso de um mesmo objeto em uma brincadeira para a criança é a união de uma figura essencial em seu convívio, que foi separada naquele momento, não está presente concretamente e somente de uma forma abstrata. É o objeto que traz o símbolo desta união abstrata para uma união concreta.
As hipóteses as experiências vivenciadas por estas crianças é fornecer uma continuidade de conteúdos culturais e pessoais, partindo assim para a brincadeira, o qual é o inicio já que com a pouca idade e experiências prévias não conhecem os jogos que estabelecem regras. A criatividade começa no brincar que é manifestado na ação que se realiza, a brincadeira.
A criança não somente possui uma cultura aleatória, não ocorre uma simples imitação, ocorre assim uma modificação do que se viveu. Quando as crianças brincam entre si podemos observar, que estas crianças estão criando uma brincadeira de pares, uma cultura criada entre pessoas que participam de uma mesma situação.
O faz de conta está dentro da brincadeira, pois a criança interpreta , brinca, fazendo representação de papeis. Com a concepção de o mundo adulto as crianças no brincar, em seu faz de conta usam e expandem de acordo com a reprodução, articulando características locais, reais, é frequente o uso das rotinas nas brincadeiras das crianças.
É por meio do faz de conta que as crianças buscam suas contradições, as mesmas lidam com regras e ficções e o desejo de expressar o real. Na linguagem do símbolo a criança constrói elementos cognitivos e emocionais, reorganizando cenas e seus ambientes diferenciados, criando assim o espaço para a fantasia.
Ao mesmo tempo em que as crianças desenvolvem importantes habilidades, elas trabalham assim a importância de alguns valores da sociedade, assim examinam algumas características da sua vida cotidiana, interpretando diferentes personagens, são representações sociais que determinam valores de alguns eventos vivenciados por estes sujeitos.
As crianças podem construir brinquedos e cenários para utiliza-los em suas brincadeiras, tudo isto com a ajuda e auxilio do educador, o mesmo deve proporcionar sugestões, realizando ações que contribuam para isto. O professor é mediador e poderá contribuir para fantasia de seus alunos.

        Nesta fase os desejos e necessidades das crianças estão relacionadas principalmente as interações com os adultos, as atividades e funções acabam se transformando em atividades de faz de conta.
         No processo de construção de mundo a criança é vista como sujeito ativo produtora de cultura, que constrói significados. Brincar é um movimento essencial para a criança, a brincadeira faz parte de um universo, é uma forma com que a criança pode se descobrir, e se descobre muitas vezes, compreendendo assim o mundo que a cerca.   A criança vai transformando cada brinquedo ou cada brincadeira em um recurso de aprendizagem.

REFERÊNCIAS

BROUGÈRE. Gilles. Brinquedo e cultura. São Paulo: Cortez, 1997.
CORSARO, Willian A. A reprodução interpretativa no brincar ao “faz-de-conta” das crianças. Revista Educação, Sociedade e Culturas. Nº 17, 2002, p.113-134.
HADDAD, Lenira. Jogos e brincadeiras na Educação Infantil. Mimeo
VIGOTSKY, Lev Semenovich. O papel do brinquedo no desenvolvimento. In: A formação social da mente: O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 124-137.
WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de janeiro: Imago, 1975.





[*] Os nomes das crianças mencionadas são fictícios.
** Trabalho realizado pelas alunas Gilliane França Evaristo e Rosilene Ferreira da Silva, orientado pelo prof. Ms. Paulo Nin Ferreira.

2 comentários:

  1. Oi meninas o blog está muito bom, eu só sugeriria que vocês dessem mais destaque ao título do blog, pois as letras e as cores do desenho ao fundo se misturaram,se colocassem uma tajá branca ao fundo do título ficaria bem melhor.É só uma sugestão, continuem desenvolvendo um bom trabalho.

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